AS COISAS MELHORES SÃO FEITAS NO AR

(já não está em cena)


50 minutos
Alunos do 1º e 2º ciclos e público em geral

Um espectáculo de teatro sobre a poesia de língua portuguesa dirigido às crianças dos 1º e 2º ciclos do ensino básico. Juntar num espectáculo o divertimento, a brincadeira, a aprendizagem, as emoções, a partir da poesia que se escreve em português. Não se trata portanto de um texto dramático levado à cena, mas de textos poéticos teatralizados, tentando revelar o prazer que a leitura pode proporcionar. Quer a música original, quer todo o ambiente sonoro proporcionarão uma abordagem diferente destes textos.

Quem fez o quê

Produção:
Andante

Textos: 
Cecília Meireles, Manuel António Pina, Luísa Ducla Soares, José Paulo Paes, Eugénio de Andrade, Manuel de Barros, Leo Cunha, Jorge Barbosa, João Pedro Messeder, Ruth Rocha, Maria Alberta Menéres, Sylvia Orthof, Carlos de Oliveira, Almada Negreiros, Álvaro Magalhães, Carlos Drummond de Andrade, Joana Cruz, António Torrado, Ricardo Benevides, Vinícius de Moraes.

Encenação: 
Carlos do Rosário

Selecção de textos: 
Joaquina Caeiro

Interpretação: 
Cristina Paiva e João Brás

Vozes infantis: 
Catarina, Joana, Lia, Martim e Tomás

Cenário e figurinos: 
Marta Carreiras

Música: 
Joaquim Coelho

Sonoplastia: 
Fernando Ladeira

Mestra de costura: 
Teresa Louro

Costureiras: 
Natália Ferreira e Palmira Abranches

Carpintaria: 
José Manuel Domingos

Espectáculo financiado por M/C – IPAE

Apoios: 
C.M.Alcochete e Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete

Agradecimentos: 
Agrupamento de Escolas de Alcochete, J.F.Alcochete, J.F.S.Francisco, J.F.Samouco, Teatro de Portalegre, Teatro da S.Lourenço, Tágides.net, Instituto Óptico de Alcochete

Antes

Um espectáculo construído a partir de poesia para crianças com as características que propomos não pode ter uma sinopse de intriga dramática nos moldes de um espectáculo convencional. "AS COISAS MELHORES SÃO FEITAS NO AR" constitui-se como uma articulação de textos poéticos em que ressalta a dimensão impressionista. Para cada poema encontra-se uma expressão cénica assente no jogo, no lúdico, nas sonoridades, nas potencialidades de comunicação.
As duas personagens/actuantes vão "viajar" entre os poemas e objectos que remetem para a leitura e a escrita. Descobrirão a partir dos textos as dimensões, o ar, o chão, as emoções, o choro, o riso, a curiosidade, a descoberta, cada poema enviando para um outro texto ou situação novos. Importa também salientar a dimensão da descoberta do português enquanto língua falada em vários continentes; daí a escolha de textos dos vários espaços da lusofonia que é bem sublinhada na construção cénica.
Mas como todo o teatro para um público infantil, este espectáculo acentua o carácter transitório e efémero das emoções, dos momentos e vivências, do imaginário das crianças. As próprias potencialidades da língua portuguesa são evidenciadas num processo de descoberta contínuo, com avanços e retrocessos, salientando o próprio caminho no campo línguistico e da imaginação.
O poema de Manuel António Pina que intitula o espectáculo é ilustrativo desse processo. Aprende-se que as melhores coisas são feitas no ar a partir da enunciação de actividades realizadas que não conseguíamos imaginar antes. E por isso as personagens as enunciam, descobrindo-as simultaneamente. Os poemas de Cecília Meireles abordam as mesmas questões de lógica ("Ou isto ou aquilo", por exemplo), em que a criança se vê confrontada com opções que se excluem completamente e vive o conflito de tomar partido. Trata-se portanto de uma dramaturgia não convencional, aquela que defendemos, assente no extremo de intertextualidade e nas possibilidades cénicas, pictóricas, sonoras, musicais e físicas da inscrição de poemas num espaço cénico.

O espectáculo

Foi nossa intenção construir um espectáculo integralmente a partir de poemas para a infância escritos em português. Consideramo-lo um conjunto de ilustrações da aventura em torno da palavra escrita e dita, em torno das páginas de um livro que se vai construindo ou descobrindo, da mesma forma que, provavelmente, se constrói a poesia. Essa aventura pouco convencional não tem uma história única; é feita de impressões, sons e sensações. Não resistimos a acrescentar a estes poemas para os mais pequenos, outros por vezes escritos a pensar num leitor adulto; a classificação "poesia infantil" ou "teatro infantil" pouco sentido faz em muitas ocasiões. Pareceu-nos interessante criar esta espécie de diálogos entre diversos poetas, misturar-lhes os textos, e ainda assim construir um sentido global no qual a integridade de cada poema não se perde ou dilui. No tocante a balizas temporais limitamo-nos a uma selecção de textos do século XX e XXI, também numa tentativa de divulgação do que de melhor se escreve para a infância, do nosso ponto de vista. Não foi, porém, nosso desejo construir uma antologia; isso fica para editores e peritos e não poderia caber no curto tempo de um espectáculo. Assim, ficaram de lado, irremediavelmente, autores que admiramos ou poemas que nos fascinam, sacrificados, num momento ou noutro do processo, pela lógica de construção das cenas. Fazer um espectáculo é também – de cada vez – aprender a soletrar, aprender a ler e a escrever. Porque é novo o livro, misterioso, com novas palavras e novas imagens, novos mundos cujo fim não se adivinha. Chuva ou sol, aventura e risco, alegria e desânimo, tempestades e calmaria, tudo cabe nesse livro que se vai compondo. Por vezes sabemos já o que a página nos reserva; aberta a seguinte uma inesperada reviravolta surpreende o contador, encaminhando-o para percursos jamais imaginados. Quisemos que este fosse um livro da poesia e dos que descobrem a felicidade das palavras nos primeiros anos das suas vidas. Sempre com a ingénua ideia de que essa descoberta nos torna mais leves e nos faz subir nos ares até nos perdermos nas nuvens.

Carlos do Rosário

Os textos

Que bom que é termos o português como primeira língua e podermos ler no original a grandiosa obra poética para a infância e juventude produzida em língua portuguesa. Refiro-me não só aos nossos escritores (os que conhecemos há algum tempo e os muitos que têm surgido nos últimos anos) mas também aos brasileiros, cuja riquíssima produção é, lamentavelmente, pouco conhecida entre nós. Esta falta de divulgação prejudica-nos a todos e impede os nossos pequenos leitores de se tornarem grandes leitores. A literatura de expressão portuguesa para os mais novos produzida em Portugal não deveria bastar-nos. Duas coisas me impressionaram neste trabalho de pesquisa e recolha de textos: em primeiro lugar (já o referi) a riqueza da literatura brasileira escrita a pensar nos mais pequenos; em segundo lugar o baixo estatuto da criança africana que se reflecte exactamente na quase ausência de produção, publicações ou edições a ela dedicadas no mundo lusófono. Ausência que se reflecte no espectáculo, que acabaria por se centrar em autores brasileiros e portugueses e em apenas dois textos oriundos de África. À criança destes países que também falam português não falta apenas a literatura, falta-lhe também a infância, falta-lhe a oportunidade de vivê-la. É este o nosso mundo global.

Joaquina Caeiro

O que eles viram

O que eles escreveram

Alunos do 4º ano da EB1 – Ermida – S. Mamede de Infesta

Sonhar é algo
Que nos faz voar.
A borboleta junto às flores
Passeia as suas cores.
E os passarinhos e nós
Vamos voar, voar… pelos ares
Aprendendo coisas que
Nunca ouvimos falar.
A poesia é uma pulga que
Salta de palavra em palavra.
Com sílabas, sons e magia
Brincamos à poesia.
Pelo céu vai o poeta
Furando o ar e a nuvem fria.
A poesia é fantasia, é emoção.
É sonhar com palavras a voar.
A correr e a saltar
A subir e a furar
A bater e a chegar
A abrir e a sorrir
A cantar e a voar
Seja noite, seja dia
As coisas melhores
São feitas no ar.

Alunos da EB1 – Amieira – Matosinhos


Era uma vez uma deslumbrante menina e um rebelde mas também amoroso menino.
Eles sempre diziam:
– As coisas melhores são feitas no ar!!!
– As coisas melhores são feitas no ar!!!
– Menino, quem me dera ser nuvem! – disse a menina.
– Menina, concordo contigo. – disse o menino.
Eles sempre diziam:
– Dizem que o búzio nos traz ao ouvido o som do mar mas eu acho que é mentira. O contador antes de começar fez um gesto no ar em redondo como se quisesse desenhar o sol, casca de caracol, um balão, a sombra de um pião, um bombo.
– Esta poesia foi um pouco cansativa, mas também imaginativa. – disse o menino.
– Menina, a solidão é o meu companheiro. – disse o menino.
– E a minha palavra companheira é a amiga. – disse a menina.
Eu, o narrador desta história, acho este teatro excelente, imaginativo; eu desfrutei da festa e obrigado por este convite fantástico que me deram.

DIANA BERNARDO – 16 anos – Ericeira


Sequência
Quem sou eu?
O que fizeres de ti.
De onde venho?
De um ventre de amor.
Porque vim?
Porque Deus quis assim.
E o que faço aqui?
O que te fizer feliz.
O que é a felicidade?
Descobre por ti.
O que é o amor?
Felicidade com dor.
O que é a dor?
O melhor professor.
O que é a sabedoria?
Caminho para a alegria.
O que é a alegria?
Momentos de magia.
O que é a magia?
O que te faz estar aqui.
Quando parto daqui?
Quando acabar a tua missão.
O que é a minha missão?
Procura no teu coração.
Finda a missão, para onde vou?
Para onde acreditares.
Deixa-te voar até ao infinito
Dá à tua existência
Um fim tão bonito
Que possa parecer
O princípio de uma nova sequência.