Textos
de Cecília Meireles, Manuel António
Pina, Luísa Ducla Soares, José Paulo Paes,
Eugénio de Andrade, Manuel de Barros, Leo Cunha, Jorge
Barbosa, João Pedro Messeder, Ruth Rocha, Maria Alberta
Menéres, Sylvia Orthof, Carlos de Oliveira, Almada
Negreiros, Álvaro Magalhães, Carlos Drummond de
Andrade, Joana Cruz, António Torrado, Ricardo Benevides,
Vinícius de Moraes.
Apoios: C.M.Alcochete e
Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete
Agradecimentos: Agrupamento de
Escolas de Alcochete, J.F.Alcochete, J.F.S.Francisco, J.F.Samouco,
Teatro de Portalegre, Teatro da S.Lourenço,
Tágides.net, Instituto Óptico de Alcochete
Estreia - 21 de Setembro de 2002
Sociedade
Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete
Um
espectáculo construído a partir de poesia para
crianças com as características que propomos
não
pode ter uma sinopse de intriga dramática nos moldes de um
espectáculo convencional. "AS COISAS MELHORES SÃO
FEITAS
NO AR" constitui-se como uma articulação de
textos
poéticos em que ressalta a dimensão
impressionista. Para
cada poema encontra-se uma expressão cénica
assente no
jogo, no lúdico, nas sonoridades, nas potencialidades de
comunicação.
As duas personagens/actuantes vão "viajar" entre os poemas e
objectos que remetem para a leitura e a escrita. Descobrirão
a partir dos
textos as dimensões, o ar, o chão, as
emoções, o choro, o riso, a curiosidade, a
descoberta,
cada poema enviando para um outro texto ou
situação
novos. Importa também salientar a dimensão da
descoberta
do português enquanto língua falada em
vários
continentes; daí a escolha de textos dos vários
espaços da lusofonia que é bem sublinhada na
construção cénica.
Mas
como todo o teatro para um público infantil, este
espectáculo acentua o carácter
transitório e
efémero das emoções, dos momentos e
vivências, do imaginário das crianças.
As
próprias potencialidades da língua portuguesa
são
evidenciadas num processo de descoberta contínuo, com
avanços e retrocessos, salientando o próprio
caminho no
campo línguistico e da
imaginação.
O
poema de Manuel António Pina que intitula o
espectáculo
é ilustrativo desse processo. Aprende-se que as melhores
coisas
são feitas no ar a partir da
enunciação de
actividades realizadas que não conseguíamos
imaginar
antes. E por isso as personagens as enunciam, descobrindo-as
simultaneamente. Os poemas de Cecília Meireles abordam as
mesmas
questões de lógica ("Ou isto ou aquilo", por
exemplo), em
que a criança se vê confrontada com
opções
que se excluem completamente e vive o conflito de tomar partido.
Trata-se portanto de uma dramaturgia não convencional,
aquela
que defendemos, assente no extremo de intertextualidade e nas
possibilidades cénicas, pictóricas, sonoras,
musicais e
físicas da inscrição de poemas num
espaço
cénico.
SOBRE OS TEXTOS
Que
bom que é termos o português como primeira
língua e
podermos ler no original a grandiosa obra poética para a
infância e juventude produzida em língua
portuguesa.
Refiro-me não só aos nossos escritores (os que
conhecemos
há algum tempo e os muitos que têm surgido nos
últimos anos) mas também aos brasileiros, cuja
riquíssima produção é,
lamentavelmente,
pouco conhecida entre nós. Esta falta de
divulgação prejudica-nos a todos e impede os
nossos
pequenos leitores de se tornarem grandes leitores. A literatura de
expressão portuguesa para os mais novos produzida em
Portugal
não deveria bastar-nos. Duas coisas me impressionaram neste
trabalho de pesquisa e recolha de textos: em primeiro lugar
(já
o referi) a riqueza da literatura brasileira escrita a pensar nos mais
pequenos; em segundo lugar o baixo estatuto da criança
africana
que se reflecte exactamente na quase ausência de
produção, publicações ou
edições a ela dedicadas no mundo
lusófono.
Ausência que se reflecte no espectáculo, que
acabaria por
se centrar em autores brasileiros e portugueses e em apenas dois textos
oriundos de África. Á criança destes
países
que também falam português não falta
apenas a
literatura, falta-lhe também a infância, falta-lhe
a
oportunidade de vivê-la. É este o nosso mundo
global.
Joaquina
Caeiro
SOBRE ESTE ESPECTÁCULO
Foi
nossa intenção construir um
espectáculo
integralmente a partir de poemas para a infância escritos em
português. Consideramo-lo um conjunto de
ilustrações da aventura em torno da palavra
escrita e
dita, em torno das páginas de um livro que se vai
construindo ou
descobrindo, da mesma forma que, provavelmente, se constrói
a
poesia. Essa aventura pouco convencional não tem uma
história única; é feita de
impressões, sons
e sensações. Não resistimos a
acrescentar a estes
poemas para os mais pequenos, outros por vezes escritos a pensar num
leitor adulto; a classificação "poesia infantil"
ou
"teatro infantil" pouco sentido faz em muitas ocasiões.
Pareceu-nos interessante criar esta espécie de
diálogos
entre diversos poetas, misturar-lhes os textos, e ainda assim construir
um sentido global no qual a integridade de cada poema não se
perde ou dilui. No tocante a balizas temporais limitamo-nos a uma
selecção de textos do século XX e XXI,
também numa tentativa de divulgação do
que de
melhor se escreve para a infância, do nosso ponto de vista.
Não foi, porém, nosso desejo construir uma
antologia;
isso fica para editores e peritos e não poderia caber no
curto
tempo de um espectáculo. Assim, ficaram de lado,
irremediavelmente, autores que admiramos ou poemas que nos fascinam,
sacrificados, num momento ou noutro do processo, pela lógica
de
construção das cenas. Fazer um
espectáculo
é também - de cada vez - aprender a soletrar,
aprender a
ler e a escrever. Porque é novo o livro, misterioso, com
novas
palavras e novas imagens, novos mundos cujo fim não se
adivinha.
Chuva ou sol, aventura e risco, alegria e desânimo,
tempestades e
calmaria, tudo cabe nesse livro que se vai compondo. Por vezes sabemos
já o que a página nos reserva; aberta a seguinte
uma
inesperada reviravolta surpreende o contador, encaminhando-o para
percursos jamais imaginados. Quisemos que este fosse um livro da poesia
e dos que descobrem a felicidade das palavras nos primeiros anos das
suas vidas. Sempre com a ingénua ideia de que essa
descoberta
nos torna mais leves e nos faz subir nos ares até nos
perdermos
nas nuvens.
Carlos do Rosário
QUEM JÁ VIU
"As
Coisas Melhores São Feitas no Ar", encenado em Alcochete
pela
Andante Associação Artística,
fará
certamente sucesso junto dos mais novos.
Quando, numa representação teatral, se consegue
calar uma
plateia de dezenas de miúdos, maioritariamente com menos de
10
anos, durante uma hora inteira e sem intervalo, o mínimo que
se
pode afirmar é que o espectáculo fez sucesso.
A associação artística Andante
conseguiu-o, na
tarde de sábado, na Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de
1898,
na estreia de "As Coisas Melhores São Feitas no Ar"(...)
"As Coisas Melhores São Feitas no Ar" é um
interessante e
digno trabalho teatral para a infância, parco em meios mas
bem
concebido, representado com assinalável profissionalismo e
apoiado numa sonorização rigorosa e
irrepreensível.
O que habitualmente se vê em teatro para a infância
é pindérico, patético e de gosto
duvidoso.
Todavia, nesta encenação da Andante encandeiam-se
habilmente textos poéticos da língua portuguesa
(mal
conhecidos da maioria), que dão vida e sentimentos a um par
de
personagens tão reais como a audiência visada, num
ambiente sonoro perfeito, tudo misturado com um rigor e simplicidade
que, no final, muitos adultos se surpreendem por terem seguido o
espectáculo sem enfado.
Afinal, fazem-se coisas boas em teatro sem ser no ar!