As coisas melhores… – O espectáculo

Foi nossa intenção construir um espectáculo integralmente a partir de poemas para a infância escritos em português. Consideramo-lo um conjunto de ilustrações da aventura em torno da palavra escrita e dita, em torno das páginas de um livro que se vai construindo ou descobrindo, da mesma forma que, provavelmente, se constrói a poesia. Essa aventura pouco convencional não tem uma história única; é feita de impressões, sons e sensações. Não resistimos a acrescentar a estes poemas para os mais pequenos, outros por vezes escritos a pensar num leitor adulto; a classificação “poesia infantil” ou “teatro infantil” pouco sentido faz em muitas ocasiões. Pareceu-nos interessante criar esta espécie de diálogos entre diversos poetas, misturar-lhes os textos, e ainda assim construir um sentido global no qual a integridade de cada poema não se perde ou dilui. No tocante a balizas temporais limitamo-nos a uma selecção de textos do século XX e XXI, também numa tentativa de divulgação do que de melhor se escreve para a infância, do nosso ponto de vista. Não foi, porém, nosso desejo construir uma antologia; isso fica para editores e peritos e não poderia caber no curto tempo de um espectáculo. Assim, ficaram de lado, irremediavelmente, autores que admiramos ou poemas que nos fascinam, sacrificados, num momento ou noutro do processo, pela lógica de construção das cenas. Fazer um espectáculo é também – de cada vez – aprender a soletrar, aprender a ler e a escrever. Porque é novo o livro, misterioso, com novas palavras e novas imagens, novos mundos cujo fim não se adivinha. Chuva ou sol, aventura e risco, alegria e desânimo, tempestades e calmaria, tudo cabe nesse livro que se vai compondo. Por vezes sabemos já o que a página nos reserva; aberta a seguinte uma inesperada reviravolta surpreende o contador, encaminhando-o para percursos jamais imaginados. Quisemos que este fosse um livro da poesia e dos que descobrem a felicidade das palavras nos primeiros anos das suas vidas. Sempre com a ingénua ideia de que essa descoberta nos torna mais leves e nos faz subir nos ares até nos perdermos nas nuvens.

Carlos do Rosário